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    A VAIDADE DEFORMA A ALEGRIA E A TRISTEZA

     
    As virtudes humanas muitas vezes se compõem de melancolia, e de um retiro agreste.
    As mais das vezes é humor o que julgamos razão; é temperamento o que chamamos desengano; e é enfermidade o que nos parece virtude.
    Tudo são efeitos da tristeza; esta obriga-nos a seguir os partidos mais violentos, e mais duros; raras vezes nos faz refletir sobre o passado, quase sempre nos ocupa em considerar futuros; por isso nos infunde temor, e covardia, na incerteza de acontecimentos felizes, ou infaustos; e verdadeiramente a alegria nos governa em forma, que seguimos como por força os movimentos dela; e do mesmo modo os da tristeza.
    Um ânimo alegre disfarça mal o riso, um coração triste encobre mal o seu desgosto: como há-de chorar quem está contente?
    E como há-de rir quem está triste?
    Se alguma vez se chora onde só se deve rir, ou se ri por aquilo por que se deve chorar, a alma então penetrada de dor, ou de prazer, desmente aquele exterior fingido, e falso.
    Só a vaidade sabe transformar o gosto em dor, e esta em prazer, a alegria em tristeza, e esta em contentamento; por isso as feridas não se sentem, antes lisonjeiam, quando foram alcançadas no ardor de uma peleja, esclarecida pelas circunstâncias da vitória; as cicatrizes por mais que causem deformidade enorme, não entristecem, antes alegram, porque servem de prova, e instrumento visível, por onde a cada instante, e sem palavras, o valor se justifica; são como uma prova muda, que todos entendem, e que todos vêem com admiração, e com respeito.

    Matias Aires

    O tempo é minha matéria

     
    Não serei o poeta de um mundo caduco.
    Também não cantarei o mundo futuro.
    Estou preso à vida e olho meus companheiros
    Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
    Entre eles, considere a enorme realidade.
    O presente é tão grande,
    não nos afastemos.
    Não nos afastemos muito,
    vamos de mãos dadas.
    Não serei o cantor de uma mulher,
    de uma história.
    Não direi suspiros ao anoitecer,
    a paisagem vista na janela.
    Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
    Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
    O tempo é a minha matéria,
    o tempo presente,
    os homens presentes,
    a vida presente.
    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE